RAINHA

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

VIDA DE SANTA QUITERIA

Foi a 22 de Maio do ano 135 que, segundo a tradição, foi degolada pelo seu noivo aquela que se tornava deste modo na primeira mártir no território hoje correspondente a Portugal. Irmã de outras oito gémeas, Santa Quitéria foi morta no Monte Pombeiro ou das Maravilhas – hoje rebaptizado com o seu nome – junto a Felgueiras. Um santuário existente no local evoca estes dramáticos acontecimentos, que culminaram com o seu primeiro milagre: o de haver caminhado para a sepultura pelo seu próprio pé, segurando a cabeça degolada entre as mãos!

Contudo, e embora a festa de Santa Quitéria se celebre a 22 de Maio, ou – como hoje - no domingo seguinte quando o calendário não coincide com aquele dia da semana, a data por excelência de devoção à santa é em Felgueiras o dia de... S. Pedro. A explicação para tal facto e a lendária história de Santa Quitéria é o que encontrará nesta “Viagem no Tempo”.





Nove irmãs gémeas. Nem menos. Os seus nomes cristãos foram-lhes dados por um dos primeiros bispos de Braga, Santo Ovídio, que as baptizou por Quitéria, Genebra, Vitória, Marinha, Marciana, Germana, Basília, Liberata e Eufémia. Um baptizado atribulado e clandestino. Porque o destino destas crianças à nascença deveria ter sido outro: mortas por afogamento. Passemos, com base na lenda e tradição, a explicar:

Corria em Braga o ano 120 quando o governador romano, o pagão Lúcio Atílio Severo, se ausentou da cidade para acompanhar o imperador Adriano numa das suas viagens. É durante a sua ausência que a esposa dá à luz nove gémeas. Por vergonha de tal aberrante e estranho facto, ou então porque o nove era considerado um número agoirento, a mãe ordena à sua criada Cita que, protegida pela noite, leve as crianças e as afogue no rio Este, nas proximidades de Braga.

Acontece porém que Cita era cristã e não conseguiu cumprir cabalmente as ordens recebidas. Levou as crianças mas não as matou, entregando-as aos cuidados do arcebispo Santo Ovídio que, durante os anos seguintes, cuidou da sua protecção, alimentação e educação. Conhecedoras, desde cedo, da sua história e de como haviam sido salvas graças aos sentimentos e às atitudes cristãs, as nove irmãs decidem, com dez anos de idade, viver juntas e dedicar a sua vida ao cristianismo. Criaram, deste modo, e com a autorização de Santo Ovídio, como que um pequeno convento.

Decorria e incentivara-se, entretanto, a perseguição aos cristãos por parte das autoridades romanas. E assim não demorou muito tempo que, denunciadas como cristãs, fossem algemadas e conduzidas até à presença do governador Atílio Severo... seu pai. Desconhecedor de toda a história das filhas o romano é surpreendido pela revelação que estas então lhe fazem. E num rápido interrogatório à esposa e à criada confirma a veracidade do que as jovens lhe afirmavam.

O governador Severo fica, no entanto, contente com a descoberta, prometendo às filhas todas as felicidades e futuros casamentos com belos jovens, ricos e nobres. Teriam, no entanto, que renunciar à sua clandestina religião e abraçar o culto aos ídolos e deuses do Império Romano. Se recusassem o governador justificaria o seu nome e, severamente, teria que as punir, com a morte se necessário. Quitéria e as irmãs pedem, então, para ficarem sós durante algum tempo para em conjunto decidirem qual a sua opção. Mas a decisão, todas elas o sabiam, estava há muito tomada. Assim, e pela última vez, despedem-se umas das outras e fogem precipitadamente do palácio do pai.

A perseguição que o governador enceta às filhas resultará apenas na prisão de Quitéria. Conduzida de novo à presença do progenitor, a jovem é informada de que dispõe de mais alguns dias para desistir da sua religião. Esgotado esse tempo o pai comunica-lhe que a havia prometido em casamento a Germano, um jovem pagão, rico e nobre. Procurando ganhar mais algum tempo Quitéria pede então mais alguns dias de reflexão, oportunidade que lhe é concedida e aproveitada para, na companhia de 38 donzelas cristãs, fugir e se refugiar no Monte Pombeiro, perto da actual cidade de Felgueiras, no topo do qual existiria uma capela dedicada a S. Pedro.

Não conseguiu, no entanto, aí permanecer em segredo durante muito tempo. Descoberta pelas autoridades romanas, recebe vários emissários de seu pai intimando-a a aceitar o seu noivo Germano. A resposta e opção são, contudo, inabaláveis: recusa as ordens do pai afirmando-se esposa mística de Cristo. Assim, e perante tais recusas e atitudes Severo acaba por ordenar a Germano que cerque o local e execute os cristãos, incluindo Quitéria, tarefa de que se encarrega o próprio noivo ao decepar-lhe a cabeça no amanhecer do dia 22 de Maio do ano 135. Tinha a mártir 15 anos. Desses momentos trágicos, segundo a lenda, resultou a imediata cegueira dos criminosos e o facto milagroso da santa ter avançado para a sepultura pelos seus próprios pés e segurando a cabeça que lhe havia sido cortada.

Não foi muito diferente, segundo a tradição, o destino das suas irmãs, também elas consideradas santas. Com efeito todas elas acabariam, igualmente, por morrer martirizadas. Um ano depois de Quitéria seria a vez de Genebra ser morta em Tuy, em Espanha. Não muito longe daí, em Orense, também Marinha seria degolada, aos 18 anos. A mesma idade com que foi morta, em Córdova, Vitória. Relativamente a Liberata e Germana desconhece-se a data e locais onde terão padecido o seu martírio. Já de Eufémia conta a lenda que, também ela, foi degolada na Serra do Gerês onde é, de resto, a padroeira da capela das termas aí existente. Basília terá sido martirizada perto do Porto, em Águas Santas. Quanto a Marciana, parece ter sido a que mais tempo sobreviveu, tendo sido morta aos 35 anos de idade em Toledo.

Ainda segundo a tradição a “história” de Santa Quitéria e a sua associação ao monte sobranceiro a Felgueiras quase desapareceu com o decorrer dos séculos, mantendo-se, no entanto, no cume da elevação uma velha e pequena capela dedicada a S. Pedro. Contudo, em 1715 uma mulher de Braga, condenada à morte por um cancro no peito, desloca-se ao monte solicitando o auxílio da santa. Poucos dias depois a devota estava completamente curada. Estava, deste modo, (re)lançada uma fortíssima devoção e veneração a santa Quitéria que resultou, logo no ano seguinte, na colocação de uma sua imagem na velha capela de S. Pedro e, em 1719, no início da construção no local de um novo e mais grandioso templo capaz de receber o número crescente de romeiros. Apenas em 1734 se daria por concluída tal construção.

Entretanto, e paulatinamente, a festa originária e mais antiga que se celebrava no monte – a dedicada a S. Pedro, padroeiro da velha capela aí existente - passava a ser confundida com a de Santa Quitéria. Enfim.... a atribulada vida dos santos!




Como chegar

Não há que enganar. Chegados a Felgueiras o Monte de Santa Quitéria impõe-se pelo domínio topográfico que exerce sobre a cidade que, de resto, se estende na sua base. Há diversos acessos ao topo da elevação e todos eles se encontram bem sinalizados.



Como ver

Espaço público por excelência, o Monte de Santa Quitéria é um autêntico parque verde que domina Felgueiras. Do seu topo, e das vertentes, se avistam belas panorâmicas sobre a cidade e toda a região envolvente. Deambular, passear ou até piquenicar por esta elevação, pelos seus trilhos e acessos arborizados não carece, pois, de grandes instruções. Visitar o templo dedicado à Santa é também bastante acessível. De facto, e para lá das horas de culto, a igreja encontra-se aberta praticamente todos os dias do nascer ao pôr do sol. Em caso de dificuldade é só dar um salto até à Casa da Confraria, construída em 1946 mesmo ao lado do templo, que não só alberga um belo restaurante, mas também uma tradicional loja onde os mais devotos (e não só) podem adquirir as costumeiras pagelas, orações, imagens da santa ou simples postais. Aí encontrará também alguém que lhe permitirá o acesso à igreja.

Já no interior do templo não deixe o leitor de prestar atenção à sólida arquitectura oitavada do edifício que, edificado na primeira metade do século XVIII, viria a ser ampliado no final do século XIX. A atenção do visitante é, no entanto, rapidamente captada pelo altar dedicado à Santa. Obra em talha, igualmente do século XVIII e dentro dos modelos barrocos então dominantes, este altar inspira-se nas tradicionais representações das “árvores de Jessé ou de Josué”, sendo que neste caso da raiz da árvore partem, não os doze ramos correspondentes aos seus doze filhos e às doze tribos de Israel, mas antes nove ramos que culminam nas nove irmãs gémeas. No ramo mais alto sobressai a imagem de Santa Quitéria. Ao lado desta representação, mas ainda no mesmo altar, uma pequena imagem de Santo Ovídio recorda o papel de protecção e vigilância que, segundo a lenda, este ancestral bispo de Braga teve para com as irmãs.

Novamente no exterior poder-se-á contemplar a torre que domina a fachada da igreja e que, começada a construir em 1875, pretendeu dar maior monumentalidade ao templo. Só para o transporte da primeira pedra aí colocada, que ocupa todo o comprimento da frente, foram necessárias 14 juntas de bois! As “melhorias” introduzidas no santuário no final do século XIX, em grande parte graças às fortunas dos “brasileiros” que retornavam a Felgueiras, incluem também a construção da escadaria de acesso à igreja, a colocação de um relógio e de um carrilhão, e a construção nas proximidades de diversos e grandiosos edifícios que sofreram várias vicissitudes e diferentes histórias na sequência, nomeadamente, da implantação da República e da confiscação dos bens da Igreja pelo Estado.

Se a contemplação do interior do templo não é difícil, mais complicada poderá ser, contudo, uma visita às oito capelinhas do século XIX que, ao longo da encosta e da antiga estrada que ligava Felgueiras ao topo do Monte, albergam imagens e cenas que retratam a vida e martírio de Santa Quitéria. Estas capelinhas que, vistas de Felgueiras, vão pontilhando de branco a encosta do Monte, desde a sua base até ao cume, não são obviamente de difícil acesso. Os seus vidros foscos impedem contudo a observação dos motivos representados no seu interior. Assim, para uma visita mais pormenorizada, dever-se-á contactar a Confraria responsável pelo santuário através do telefone 255 926343.

Embora o dia de Santa Quitéria se celebra a 22 de Maio, o momento por excelência para visitar o local, pela sua festa, pela romaria e pelo número elevado de devotos que atrai, é, como já explicamos, a 29 de Junho, dia de S. Pedro. A crescente devoção que desde o século XVIII aí se passou a fazer a Santa Quitéria fez com que desde então e paulatinamente os romeiros tenham de algum modo secundarizado S. Pedro em benefício da Santa Quitéria.





Santa Quitéria (Braga, c. 120 — Aire-sur-l'Adour, 22 de Maio de 135) é uma santa virgem e mártir do século II, que viveu na Lusitânia e foi martirizada na Aquitânia, na povoação de Aire-sur-l'Adour.

Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga, Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia, mulher de Lúcio Caio Otílio, governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano, no século II da nossa era. Quitéria nasceu no ano de 120, em Braga, na região do Minho, por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Adriano em viagem pela Península Ibérica.

Naquela época predominavam as superstições, a ponto de represália do marido, homem de procedimento muito rígido, instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Mas, movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo, Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga, Santo Ovídio, que as baptizou e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs, tudo a suas expensas.

Anos mais tarde, tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano, desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. Ante a recusa da filha, Otílio condenou-a à morte, cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 135. Quitéria estava com 15 anos de idade.

Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada, Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada1 .



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