segunda-feira, 22 de outubro de 2018

APARIÇÃO DE NOSSA SENHORA DA LUZ EM CARNIDE - PORTUGAL

Aparição de Nossa Senhora da Luz.
Encontro da Imagem de Nossa Senhora da Luz em Carnide - Lisboa.

A devoção a Nossa Senhora da Luz teve início em Portugal, quando o país ainda era um Reino e investia alto nas grandes navegações e na conquista da África. Pedro Martins, nascido em Carnide, pequena cidade próxima​ a Lisboa, foi o precursor da devoção a Nossa Senhora da Luz.  Martins participou de várias viagens para a África à procura de aventuras e riquezas, quando, em 1459, foi aprisionado por árabes.
Aprisionado por árabes

Os árabes só restituiriam a liberdade de Pedro Martins se fosse pago um alto valor como resgate. Mesmo assim, ninguém sentiu compaixão para pagar o resgate. Com isso, Pedro se viu abandonado na prisão sofrendo humilhações e crueldades de todo tipo.
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    Alguns anos antes do de 1463. foi cativo em África um venturoso homem, chamado Pedro Martins, que sendo natural de Carnide, termo de Lisboa, situado uma légua distante para o Noroeste, e saindo, como sucede a muitos, a buscar ventura, deu consigo no Algarve, aonde casou com uma mulher por nome Inês Anes; & voltando com ela para Carnide, viveu neste lugar alguns tempos com mostras de virtude, e Cristandade. Por vários sucessos foi cativo em África, não se sabe com certeza em que tempo fosse; crer-se que seria no tempo em que El-rei Dom Afonso V. passou là, aonde o cativaram em alguma saída. Porque consta, que veio a Portugal por favor de nossa Senhora no ano de 1463.

Entende-se que o tempo que esteve naquelas infernais masmorras de África, seria largo, & também grandes as vexações, & crueldades, que nelas padeceria, que ajudado de graça divina, tolerou com grande paciência, aonde se não esqueceria de invocar a piedosa Mãe dos pecadores, de quem era muito devoto; para que o ajudasse a levar aquele trabalho: ao que a misericordiosa Senhora não faltou.

Porque lhe apareceu cercada de resplandecentes luzes, cuja visita ele recebeu com admirável devoção, como sempre tivera.

E não foi isto uma vez somente, mas muitas no espaço de trinta dias: & instruindo-o do que intentava obrar por seu meio, lhe disse:

Filho, consola-te que eu te livrarei deste cativeiro, com tanto, que vendo-te em tua liberdade, me faças, no lugar de Carnide, em que nasceste, sobre a fonte do Machado uma Ermida, conforme tuas posses, da invocação da Senhora da Luz, por ser este titulo o que mais comigo simboliza, & de que meu Filho mais se agrada, na qual há- de ser meu nome glorificado, honrado, & aumentado com inumeráveis milagres, obrados naqueles, que com fé viva se valerem de minha poderosa intercessão. E advirto te , que quando lá chegares, acharás de minha luz, & claridade vestígios, que teus naturais experimentarão há perto de hum ano, sobre a mesma fonte.

Ali cavando acharás uma Imagem minha, a quem dedicarás a Ermida que te digo.

        Depois de tão celestiais visitas que teve o devoto Pedro Martins, com grande jubilo, e alegria de sua alma, estando pelo partido, e concerto que a Senhora lhe fizera, se achou por sobrenatural, e inefável modo, livre do penoso cárcere, & cativeiro, com os mesmos ferros, e grilhões que o tinham preso, na sua própria terra, e casa.

Divulgada a nova de sua milagrosa chegada, veio logo um seu sobrinho visita-lo; mas ele como era mui singelo, e dotado de santa simplicidade, não se atrevia a descobrir (ainda a sua mulher) as milagrosas aparições que tivera no cárcere; reflectindo  então nas luzes, e resplenderes, que apareciam havia muito tempo sobre a fonte do Marchado, revelou o segredo que tinha escondido em seu peito, contando miudamente o aparecimento da Senhora, e circunstancias dele.

Obrigatário-no logo a que quisesse ir à fonte a descobrir o celestial tesouro; e deixando-o para a noite, partiram no maior silencio dela os três ditosos companheiros: convém a saber, Pedro Martins, sua mulher, e sobrinho; levando por guia uma miraculosa luz, à maneira da Estrela que encaminhou os Magos ao portal de Belém: porque assim como eles davam o passo, assim também se movia o resplendor daquela tocha, ou luz, até que parou num espesso bosque.

        Vendo Pedro Martins, que o Céu demonstrava ser este o campo que guardava a pedra preciosa da Imagem Sacratissima, cheios de espírito, respeito, & devoção, tanto cavaram ali, até que foi achada sobre uma lage de fino mármore; ou dentro de uma caixa de pedra coberta com a lage.

Parecendo-lhes que estava a Senhora vestida de Sol, e com um rosto tão belo, e tão formoso, que alem de se reconhecer  quem era, parecia ser obrada pelos Anjos: roubava com a sua graça os corações de todos os três companheiros, e posto que cada um deles lhe dava mil reverentes beijos.

Pedro Martins (como mais obrigado) conhecendo ser a própria que lhe aparecera, com incrível devoção prostrado por terra, & derramando copiosas lágrimas de seus olhos, lhe rendia a alma com todas as potencias.

        No próprio lugar se lhe construiu logo um Altar em que a colocaram. E divulgada a nova da maravilhosa aparição,
concorreu o povo com grande fervor a venera La:e a Senhora fez uma perene fonte. Começou a obrar as suas costumadas maravilhas.

Para conseguir fazer a capela se foi Pedro Martins para o Algarve a vender uma fazendazinha que lhe haviam dado em dote, para com o preço dela começar a desempenhar a sua promessa, donde voltando com a maior brevidade, deu conta de tudo a Dom Afonso Nogueira, (que então era o Bispo de Lisboa) para que lhe concedesse licença para fundar a Ermida; o qual, como Varão Santo, o teve por grande alvitre; e não só lhe concedeu a licença, mas se ofereceu a lançar a primeira pedra, e tudo o mais que fosse necessário, dando-se os parabéns de ser tão ditoso, que no seu governo sucedesse tão estranha maravilha.

Fonte  AGOSTINHO DE SANTA MARIA, Fr. Santuário Mariano Alcalá, Imperitura, 2007 [1711] , p.tomo I, parte I, título XIII, pp. 98-102
Traduzido do Português antigo
Igreja de Nossa Senhora da Luz em Carnide- Lisboa.

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