quinta-feira, 12 de maio de 2022

A VISÃO DO INFERNO DE SANTA TERESA

 


A visão de Santa Teresa de Ávila

A grande santa espanhola do século XVI era freira carmelita e teóloga. Teresa faz parte do reduzido grupo dos 35 doutores da Igreja: seu livro “O Castelo Interior” é considerado um dos mais importantes da história sobre a vida espiritual. Em sua autobiografia, ela descreve uma visão do inferno, que atribui a uma graça de Deus destinada a afastá-la do pecado:

A entrada pareceu-me um túnel longo e estreito, semelhante a um forno muito baixo, escuro e apertado.  O chão tinha aparência de uma água, ou antes, de um lodo sujíssimo e de odor pestilencial, cheio de répteis venenosos. No fundo havia uma concavidade aberta numa parede, como um armário, onde me vi, encerrada de maneira muito apertada. O tormento interior é tanto que não há palavras para defini-lo, nem se entende como é realmente.
Na alma senti tal fogo que não tenho capacidade para descrever. No corpo eram incomparáveis as dores. Tenho passado nesta vida dores gravíssimas. No dizer dos médicos, são as maiores que se podem suportar, como, por exemplo, quando se encolheram todos os meus nervos e fiquei tolhida. Já não falo de outras muitas dores de diversos gêneros e até de algumas causadas pelo demônio. Posso afirmar que tudo foi nada em comparação com o que ali experimente.
O pior era saber que seria sem fim, sem jamais cessar. Sim, repito: tudo pode ser considerado um nada em relação ao agonizar da alma: é um aperto, um afogamento, uma aflição tão intensa, e acompanhada de uma tristeza tão desesperada e pungente, que não sei como posso explicar semelhante estado! Compará-lo à sensação de que estão sempre a lhe arrancar a alma é pouco. Nesse caso, seria como se alguém acabasse com a nossa vida. Aqui é a própria alma que se despedaça. O fato é que não sei como descrever aquele fogo interior e aquele desespero que se sobrepõem a tão grandes tormentos. Eu não via quem os provocava, mas sentia-me queimar e retalhar. Piores, repito, são aquele fogo e aquele desespero que me consumiam interiormente. Em lugar tão pestilencial, sem esperar consolo, é impossível sentar-se, ou deitar-se, nem há espaço para isso. Puseram-me numa espécie de fenda cavada na muralha. As próprias paredes, espantosas à vista, oprimem, e tudo ali sufoca. Por toda parte, trevas escuríssimas. Não há luz. Não entendo como, sem claridade, se enxerga tudo, causando dor aos olhos. Nesta ocasião, o Senhor não quis que eu visse mais de tudo aquilo que há no inferno. Em outra visão, vi coisas horripilantes acerca do castigo de alguns vícios. Pareceram muito mais horrorosas à vista. Como não sentia a pena, não me causaram tanto temor como na primeira visão, na qual o Senhor quis que eu verdadeiramente sentisse aquelas torturas e aquela aflição de espírito como se o corpo as estivesse padecendo. Como foi isso, não sei, mas bem entendi ser grande graça do Senhor querer que eu visse, com meus olhos, de onde a sua misericórdia me havia livrado. Verdadeiramente, é nada ouvir discorrer, ou ainda meditar, sobre a diversidade dos tormentos, como eu de outras vezes havia feito, embora raramente. A feição de minha alma não é ser levada pelo temor. Lia que os demônios atenazam as almas e lhes infligem outros suplícios. Tudo é nada em comparação com a pena verdadeira, que é muito diferente. Numa palavra, é tão diferente quanto o esboço o é da realidade. Queimar-se aqui na terra é sofrimento muito leve em comparação com aquele fogo de lá. Fiquei tão aterrorizada, e ainda permaneço enquanto escrevo, apesar de terem decorrido quase seis anos. De tanto temor, tenho a impressão de ficar gelada. Desde então, ao que me recordo, cada vez que tenho sofrimentos ou dores, tudo o que se pode passar na terra me parece nada. Penso que, em parte, nos queixamos sem motivo. Foi esta, repito, uma das maiores graças que o Senhor me deu. Valeu-me imensamente, seja para perder o medo das tribulações e contradições desta vida, seja para me esforçar ao padecê-Ias e dar graças ao Senhor por me ter livrado, ao que agora me parece, de males tão perpétuos e terríveis. Foi essa visão que me encheu da grande angústia que sinto ao ver tantas almas perdidas […] e que também me deu a maioria dos desejos veementes de salvação das almas, pois acredito que, para poupar-me um daqueles tormentos esmagadores, eu preferiria suportar muitas mortes.



 

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