quinta-feira, 12 de maio de 2022

FÁTIMA E O PURGATÓRIO

Das Memórias da Irmã Lúcia:

— E eu também vou para o Céu?
— Sim, vais.
— E a Jacinta? 
— Também. 
— E o Francisco? 
— Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com minha irmã mais velha. 
— A Maria das Neves já está no Céu? 
— Sim, está.
Parece-me que devia ter uns 16 anos. 
— E a Amélia? 
— Estará no purgatório até ao fim do mundo. [1]

Talvez a revelação da Virgem Santíssima à Irmã Lúcia assuste-nos um pouco. É de fato impressionante a ideia de uma alma sofrendo no Purgatório até a consumação dos tempos. Movidos pela curiosidade, podemos chegar a nos perguntar o que teria feito Amélia para merecer uma punição assim tão severa da justiça divina.

O que mais nos aproveita, porém, é pensar que todos nós podemos muito bem ter a mesma sorte dessa amiga da Irmã Lúcia, caso levemos uma vida medíocre, “mais ou menos”, sem peso; caso não queiramos pagar, nesta existência, o alto preço do amor. O Purgatório é, afinal, o lugar para onde vão as almas que, embora se tenham salvo, não quiseram se entregar totalmente a Deus; embora se tenham salvo, ainda estavam muito apegadas às coisas deste mundo.


A pena de Amélia leva-nos a lembrar, também, daquela visão de Santa Francisca Romana, segundo a qual “por cada pecado mortal perdoado”, restaria “à alma culpada passar por um sofrimento de sete anos” no Purgatório. A amiga da Irmã Lúcia talvez tenha sido uma dessas almas que acumularam em vida inúmeros pecados mortais, dos quais se arrependeram, sem que tenham tido tempo, no entanto, para repará-los nesta vida.

Com revelações como essa, Deus quer fazer um apelo à nossa indiferença, dar um grito para romper a nossa surdez. Não se entra no Céu senão por meio de muitos sofrimentos (cf. At 14, 22). Se não quisermos sofrer aqui, teremos de sofrer no outro mundo. E daí não saíremos enquanto não houvermos pago “até o último centavo” (Mt 5, 26).

. É como a história do jovem rico (cf. Mc 10, 17-27), que poderia ser um grande discípulo de Cristo, e não foi.

Poderíamos até nos perguntar se essa personagem anônima dos Evangelhos, da qual não mais tivemos notícia, realmente se salvou. Talvez até tenha tido a “sorte” de passar o Purgatório com Amélia até o fim do mundo. Talvez já esteja no Céu agora, tendo passado por um brevíssimo Purgatório. A verdade é que, do jeito como ele deixou a famosa cena do Evangelho, seu lugar ainda não era o Céu. Porque o Céu não é simplesmente o lugar de quem não tem pecados (como o jovem rico parecia não ter); o Céu é o lugar dos que amam, dos que querem se unir a Deus mais do que qualquer coisa nesta vida.

Maria das Neves e Amélia eram duas amigas de Lúcia, que frequentavam a sua casa “para aprender a tecer com a sua irmã mais velha”, e faleceram pouco antes das Aparições – Maria das Neves faleceu em 26/02/1917 e Amélia faleceu a 28/03/1917, ambas com 20 anos de idade.

A resposta de Nossa Senhora, quanto ao destino eterno de Amélia, é categórica: «Estará no Purgatório até ao fim do mundo»!

São palavras duras e preocupantes, quando revelam a Justiça de Deus aplicada a uma jovem portuguesa que vivera apenas 20 anos, no início do século XX, num lugar isolado e deserto, perdido nos contrafortes da Serra do Aire (distante cerca de 150 km de Lisboa), onde predominam colinas pedregosas e azinheiras, jovem essa descendente de um povo bom e ordeiro, de Católicos praticantes e devotos do Terço do Rosário.

Fátima, em 1917, representava provavelmente um ambiente de extrema religiosidade e de prática corrente da Moral Cristã.

Que género de pecados teria cometido esta moça, de modo a ter que pagar as penas e danos, devido a eles, no Purgatório até ao fim do mundo?

A primeira questão, que surge desta revelação, deveria ser a de uma profunda reflexão sobre a gravidade do pecado e a Justiça Divina (para além da imensa Misericórdia de Deus, claro).

Se já naquele tempo, em que havia muito mais Amor e Temor de Deus, era assim, como não será agora?!
+ Meu Senhor e meu Deus, tende piedade de nós!

Não deveríamos nós reavaliarmos profundamente os conceitos de Misericórdia e Justiça de Deus – Deus não é SÓ Amor (ao contário do que, caprichosa e rebeldemente, pretendem muitos), mas também é perfeita Sabedoria, Justiça e Santidade! –, a fim de começarmos a praticar, na vida diária de cada um, os preceitos lógicos e sensatos de São Domingos Sávio, assim como de tantos outros Santos, que diziam frequentemente:

«Antes morrer do que pecar!»
E, isto mesmo, em conformidade com estas particulares e bem elucidativas advertências e exortações do Senhor Jesus:
«Que adianta ao homem ganhar todo o mundo (possuir todos os prazeres e vaidades), se ele vier (por isso mesmo) a perder a sua alma!?»
«Se queres ser Meu discípulo, renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-Me!».

As Almas do Purgatório (ao contrário das pessoas ainda vivas neste mundo) nada podem fazer para diminuir ou abreviar os seus próprios sofrimentos de reparação, assim como o respectivo tempo de expiação – embora tenham garantida a sua própria salvação eterna, logo após a necessária e total purificação.

No entanto, as orações, penitências e, em particular, as Missas de sufrágio, daqueles que ainda vivem na Terra (Igreja Militante), podem beneficiar, parcial ou totalmente, essa dolorosíssima e especial condição da «Igreja Padecente» (Almas do Purgatório), por obra e graça da Misericórdia e Justiça Divinas – ao ponto de uma só ou várias Eucaristias, por exemplo, poderem libertar uma Alma, que eventualmente teria de penar vários meses ou muitos anos.

Assim mesmo, deve-se entender e acreditar que a «Amélia estará no Purgatório até ao fim do mundo»..., se, infelizmente, não houver entretanto quem reze e se sacrifique por ela, ou quem mande celebrar Missas em seu sufrágio (pelo seu eterno descanso), assim como por qualquer outra alma, ou pelos nossos entes queridos já falecidos, caso necessitem.

Mas nenhuma oração, penitência ou boa-obra, se perde de modo algum, desde que bem feitas, a favor de pessoas vivas ou já falecidas, pois têm sempre muito «mérito» perante Deus (pela Sua infinita Misericórdia); o Qual, por sua vez, valoriza eficazmente e distribui justamente tais pedidos e virtudes, como benefícios e graças, por quem são aplicadas ou por quem mais precisa, a começar por nós próprios, não tanto materialmente e neste mundo, mas sobretudo espiritualmente e na Eternidade.

Reconheçamos, decisiva e definitivamente, o valor enorme e sublime das orações, penitências e sofrimentos (pela infinita Misericórdia Divina), enquanto pernanecemos neste mundo de provação, conversão e santificação, segundo o Plano salvífico de Jesus Cristo, quer em relação ao próximo e a nós mesmos, quer em relação às Almas do Purgatório; porém, sempre visando a maior Gória de Deus, de Quem tudo procede e a Quem tudo devemos, que só assim poderemos salvar-nos, sendo eternamente felizes!

Todas as grandes Obras de Deus, e em particular aquelas relacionadas com a conversão e salvação das Almas – que é sempre o mais importante, pois só para esse fim fomos criados à imagem e semelhança de Deus! –, são feitas com a oração, a dor e o sacrifício de algumas Almas privilegiadas, assim como dos bons Cristãos em geral, mesmo sem darmos por isso.

Em Fátima, estas foram as Missões específicas, para além da maior Glória de Deus, desempenhadas por Jacinta e Francisco Marto – as duas Crianças morreram em circunstâncias extremamente difíceis e dolorosas! –, Almas escolhidas por Deus como vítimas da expiação e reparação dos pecados da Amélia e de todos nós; sobretudo com a finalidade de evitar a todo o custo a nossa eterna condenação, ou seja, um mal imensamente pior do que o «Purgatório até ao fim do mundo», o Inferno eterno!...


«Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas!»

É o apelo doloroso de Nossa Senhora para que não só rezemos pela salvação de todas as almas mas também pela salvação da nossa própria alma de modo que possamos ir direto ao Céu e não tenhamos a mesma sorte de Amélia e não fiquemos no terrível Purgatório até o fim do mundo!


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